Sonho na alta costura

Para uns raros felizardos, a fama chega e fica para sempre. Para outros, nunca chega. Para outros, ainda, ela aparece e dura alguns minutos. É esse o seu caso? Escreva contando sua experiência. Selecionaremos a melhor e publicaremos aqui. Hoje, é a vez do depoimento de Cacildo Alphonse Ciboulette, de Porto Alegre.

Meu pai sempre foi um homem rígido e eu, como filho único, sofri um bocado. O sonho dele era que eu fosse fazendeiro, coisa que eu detestava. Tinha outros planos mais ambiciosos. Mas nunca tinha coragem de botar em prática. Até que um dia chegou à cidade o figurinista Clodô Special, sem favor um dos mais famosos do país e o meu grande ídolo. Ele ia fazer um megadesfile de suas últimas criações. Se eu perdesse, nunca me perdoaria. Decidi então ir até lá e mostrar a ele, de qualquer maneira, os modelos que eu vinha criando escondido há anos, desde que eu tinha 16 anos. Quando cheguei no grande salão do hotel onde acontecia o desfile, meu coração começou a bater forte de emoção e de medo. Estava lotado, cheio de gente importante e conhecida. Fiquei tomando coragem atrás de uma coluna, só olhando a passarela, as modelos exibindo coisas lindas. Então, no final, Clodô apareceu, de carne e osso para os aplausos. Juntei toda a coragem que me restava e fui correndo para a passarela. Dei um pulo para chegar ao alto e aí aconteceu o desastre. Esqueci de dizer que, para ninguém me reconhecer, vesti um dos meus modelitos mais belos. E foi na saia ampla e cumprida que eu tropecei e caí de cara no chão, na frente de toda aquela multidão. Um horror, queridinhos! O pior dia da minha vida. Mas eis que, como todo gênio, Clodô, um perfeito gentleman, pulou onde eu estava e me ajudou a levantar. Tudo diante de dezenas de fotógrafos que gastaram seus filmes em cima de mim e do Clodô. Consegui balbuciar no ouvido dele que o idolatrava e queria mostrar meus vestidos. Ele me abraçou e me beijou e a foto saiu em todos os jornais da cidade no dia seguinte. Por sorte, eu estava bem disfarçado, com maquilagem pesada, e ninguém em casa me reconheceu. Foram minutos, pouco mais de 15 minutos de glória e fama. Ele me deu seu cartão e pediu para visitá-lo um dia em seu estúdio em Paris. E continuo desenhando, sempre escondido do meu pai, meus modelitos para conseguir dinheiro e um dia ir a Paris para encontrar meu ídolo, Clodô Special. - C.A.C.