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Uma
socióloga canadense, francófona, perguntou-me, após
ter pacientemente ouvido minha palestra sobre modelos de desenvolvimento
e integração regionais, que realizei em 1984, em
Quebec, se eu me sentia mais europeu ou mais britânico.
Confesso que fiquei surpreso com a inesperada pergunta. Na fração
de segundos seguinte, pensei em ganhar algum tempo antes da resposta
e pedi-lhe que repetisse a pergunta.
Ela
o fez e, ao ouvi-la falar naquele inglês com a pronúncia
deliciosamente francesa, tentei lembrar-me mentalmente o que eu
dissera, ao longo da conferência, que poderia ter motivado
aquela estranha pergunta. Não achei nada, mas, de repente,
senti-me como um texano em Cambridge, que, ao despedir-se de seus
colegas scholars, se dá conta de que está
usando botas e aquele chapelão típico de caubói.
Obviamente,
saí pela tangente e respondi que me sentia um cidadão
do mundo. Logo me dei conta de que era um subterfúgio e
acrescentei, diplomaticamente, que o fato de me expressar melhor
em inglês do que em qualquer outro idioma culto, talvez
fizesse de mim um europeu um pouco diferente. "Na verdade",
arrematei, tomado de súbita coragem, "nunca pensei
nisso".
A
jovem socióloga percebeu meu constrangimento e pediu desculpas
pela pergunta, que classificou de atrevida. Disse a ela que não
era o caso de se desculpar e prometi dar-lhe uma resposta mais
convincente. "Vou pensar sobre o assunto", emendei,
apressado, para me ver livre dela. "Se quiser, posso enviar-lhe
uma resposta mais completa por escrito". Delicadamente, ela
sorriu e aceitou a minha proposta.
Um pouco mais tarde, ao me despedir dela, após ter-me dado
seu cartão de visitas, confidenciou-me, em tom mais baixo:
"A sua resposta foi tão convincente quanto a de um
garoto de 15 anos que é visto fumando pela mãe".
Demos uma gostosa risada. Ela riu mais e melhor do que eu. Eis
aí, pensei, uma desvantagem do British way of life.
De
volta para o hotel, no táxi, sentado no banco de trás,
me vi, criança, sardento, cabelo vermelho, com minha mãe
tentando me enfiar goela abaixo aquele maldito óleo de
fígado de bacalhau. A coitada me dizia que aquilo era necessário
porque não havia sol suficiente na ilha. Essas duas coisas
(a ilha e a ausência de sol) eu só fui entender muito
tempo depois, já adulto.
O
hotel nunca me pareceu tão longe. Minha regressão
continuava. De repente, me vi, num pesadelo recorrente quando
tinha uns dez anos, fantasiado de escocês, saiote xadrez,
tocando gaita de fole, na banda do colégio. Eu louco para
jogar futebol, mas nada disso. Era dia da bandeira inglesa (a
Union Jack). Haja saco! Desfile, fanfarras, discursos, horas intermináveis.
Não via a hora de comer meu sanduíche de rosbife
com picles.
Durante
as noites de inverno, minha regressão à infância
continuava desordenadamente, ficávamos todos perto da lareira.
Meu pai chegava pontualmente entre as oito e 11 horas da noite
para o jantar. Antes, encontrava-se com os amigos, num velho pub.
Às vezes, eu ia buscá-lo. No caminho de casa, contrariado,
ele me dizia: "Filho, você precisa entender a diferença
entre viver numa ilha, como a nossa, e no continente".
O
tom em que dizia essas coisas me intrigava. Nunca entendi - e
a confusão perdura até hoje - se era vantagem ou
não viver numa ilha. Ele mesmo não sabia.
"Lá",
dizia, referindo-se ao continente, "eles bebem vinho; aqui,
tomamos cerveja e gim". Naquelas malditas terras, gritava,
brandindo o boné pelos ares, como se fosse um crucifixo
a exorcizá-las, "as pessoas cantam e bebem alegremente".
Mas aqui, na nossa ilha abençoada, "nós, mais
civilizados e inteligentes, bebemos e brigamos".
Uma
noite, fui buscá-lo no pub, lá pelas dez horas.
Achei que tinha bebido um pouco além do normal. Tomei coragem
e sugeri que nos mudássemos para o famoso continente. Só
para ver como era lá. Não respondeu nada. Mas quando
chegamos em casa, proibiu-me de jogar futebol no sábado.
Numa
noite de verão, enquanto brincava com amigos, na calçada
em frente à minha casa, ouvi minha mãe tagarelar
com as vizinhas: "Elas (as do continente) fazem amor com
os maridos ou amantes quando estão com frio; nós
usamos bolsas de água quente".
Tudo
isso passou pela minha cabeça enquanto o táxi se
dirigia para o hotel. No bar, não resisti e pedi ao garçom
um scotch com muito gelo e água mineral.
Afrouxei
o nó da gravata, soltei o primeiro botão da camisa,
tirei o paletó e relaxei, feliz, por me livrar daquelas
lembranças incômodas. Na terceira dose, lembrei-me
da felicidade dos meus pais quando os levei para conhecer o Quartier
Latin, em Paris, onde fiz meu mestrado. Nunca vou esquecer a cara
da minha mãe. Meu pai, durão, ensaiava um ar de
tédio, sempre que nossos olhares se cruzavam, nos bulevares
de Saint Germain des Près.
De
volta à ilha, minha mãe não se cansava de
contar pela milésima vez para as vizinhas, incrédulas,
as belezas de uma cidade continental. Meu pai, fiquei sabendo
depois por meu irmão caçula, que era quem ia buscá-lo
no pub, provocava os amigos de copo: "Vocês",
dizia, "são uns mongolóides, não conhecem
nada além das brumas desta ilha".
Durante
o jantar no hotel, de repente, me ocorreu outra lembrança
da época dos bancos escolares. E esta é definitiva
para mostrar a diferença entre o modo de pensar de continentais
e de ilhéus. Trata-se do latinista e historiador alemão,
do século 19, Hans Arlindus Von Piven, que encontrou, nos
relatórios das campanhas militares romanas da época
da conquista da Britânia, uma curiosa e enigmática
referência aos habitantes dessa região Eles eram
chamados pelos generais de Roma como os "guardiões
das brumas", ou como eles diziam, milites umbrarum.
Acho
que os romanos tinham razão!
(*)
Kenneth Goodson é economista especializado em países
emergentes, PhD em Antropologia Urbana e autor, dentre outras
obras, de "Delenda o Folclore". |