|
Para
professor, textos
da imprensa brasileira
deixam muito a desejar
Por
Charles Hecht Azevedo
Editor de Literatura e Texto Final
Entre
seus alunos na Universidade Hildy Johnson, em East Mojave, no
Arizona, EUA, o brasileiro Walter Mello Burns tem fama de intransigente
e perfecionista, "um refinado caxias", como ele mesmo
se define com humor. "Meus alunos americanos já incorporaram
ao seu vocabulário várias gírias brasileiras
e uma das prediletas é exatamente caxias, geralmente
para me definir e os professores que consideram exigentes demais",
ele explica.
A fama de atento a detalhes e perfecionista fez de Burns um nome
respeitado não só em seu país como principalmente
nos Estados Unidos, onde participa anualmente de dezenas de palestras
e workshops em todo o país. Em sua rápida visita
ao Brasil, de passagem para a Argentina, onde é um dos
convidados de honra do Simpósio Imprensa Cultural e Não-Cultural
no Cone Sul, Burns recebeu para uma entrevista este repórter,
por sinal, um de seus antigos alunos aqui no Brasil.
Com relutância, ele concordou em fazer uma análise
da imprensa brasileira, que conhece minuciosamente, já
que na sua universidade lê e analisa a cada sete dias 12
dos principais jornais de nosso país e 10 revistas semanais,
quinzenais e mensais. Segundo Burns, embora nossa imprensa possa
ser situada entre as melhores e mais vibrantes do mundo, no aspecto
gráfico, os textos ainda deixam muito a desejar. "São
repetitivos, cheios de clichês e, com raras exceções,
pouco inovaram nos últimos 20 anos", afirma.
Clichês
e literatos
O
professor brasileiro cita alguns desses clichês, que define
como "pérolas infames e indestrutíveis".
Um dos vícios que destaca é o que vem depois das
citações dos entrevistados. "Não deve
haver outra coisa além de 'disse ou afirma', quando
se quer explicar o que o entrevistado falou. Vem a frase dele
e depois uma das duas palavras. Esse negócio de" disparou
"," provocou "e outras tolices, é coisa
de bobo, gente sem imaginação". Ele cita um
exemplo, a declaração de um cantor famoso: "Acho
que nossa música é a melhor do mundo", dispara
". Burns pergunta:" Por que dispara? Ele estava
armado, queria atingir alguém? E o que dizer da gasta e
cretina "disparou sua metralhadora giratória em
todas as direções? Uma pena que um tiro não
acerte quem escreve isso", ironiza Burns.
Fã
de futebol (confessa que é são-paulino e flamenguista),
ele aborda o esporte e chama atenção para o que
considera "tolice pedante" da imprensa paulista. "Por
que a Juventus, a Roma, entre outros,
para se falar dos clubes de futebol italianos? Se é assim,
por que não a Palmeiras, já que é
feminino, Sociedade Esportiva Palmeiras? Coisa de caipira deslumbrado",
define Burns.
Quanto a sua especialidade, a imprensa cultural, o professor brasileiro
explica que é aí onde os excessos, absurdos e deficiências
mais aparecem. "Há várias décadas, nossos
suplementos literários estão entre os mais chatos
da imprensa mundial. É o vício da chamada"
academia ", aqueles intelectuais universitários, intoxicados
de cultura, que não digeriram o que leram e que, na solidão
de suas cátedras, não têm o que fazer, além
de tentar entender livros aborrecidos e complicados (geralmente
traduções do francês), que tentam repassar
para o leitor, com resultados desastrosos. Mas o que fazer, quando
os responsáveis pelos suplementos são igualmente
acadêmicos chatos e escritores frustrados? Só podem
atrair gente chata, não acha?"
Cinema,
polícia e afinal
Fã
de cinema ("gosto tanto de Bertolucci quanto de Clint Eastwood",
ele diz), Burns acha que é talvez na crítica cinematográfica
brasileira que pontificam com mais freqüência alguns
dos textos mais tolos e vazios de toda a imprensa brasileira.
Ele faz ironia: "As últimas estatísticas revelam
que existem cerca de 8.342 críticos de cinema, somente
no Rio e em São Paulo. Não pode sair coisa boa.
Aquele clichê 'não é nenhuma obra-prima, mas
agrada', existe desde que saí do Brasil, há 25 anos,
e continua em cartaz. E o que dizer do preconceito, igualmente
velho, para definir a televisão, chamando-a de" telinha
"? Ora, vamos, será que não sabem que já
há projetores de 100 polegadas? Isso é telinha?
Agora, quanto à qualidade, sem dúvida a televisão
pode ser definida como telinha".
"Tenebrosos",
de acordo com sua definição, são os textos
policiais, que continuam os mesmos há várias décadas.
"Velhos, cheios de impropriedades e naquele jargão
policialesco dos anos 50. Todo dia encontro barbaridades como
estas em jornais e revistas respeitáveis: " Dois
elementos que ocupavam um sedã cinza efetuaram disparos
contra pessoas que se encontravam na fila do coletivo. Meu
Deus, quem escreve assim, o repórter ou o policial que
cuida do caso? Ficaria mais simples assim: Dois homens num
carro cinza deram tiros em pessoas na fila do ônibus?"
Burns afirma que se fosse enumerar as bobagens que anota diariamente
em nossa imprensa não haveria espaço suficiente
em todo o SacolãoBrasil. Segundo ele, de todos os
vícios e clichês que encontra com freqüência
cada vez maior nos textos brasileiros, dois considera particularmente
detestáveis, exemplo, explica , de preguiça e falta
de imaginação. "Um deles é o horrível"
Quem passar pela rua tal, não poderá imaginar que,
por trás daqueles muros altos, existe uma feia favela.
Quem poderia imaginar, ora essa, com muros tão altos? E
por que deveria imaginar exatamente aquilo que o repórter
quis que imaginasse? Outra praga é o nefando Afinal.
Qualquer redator ou repórter sem imaginação,
que quer pontificar e encerrar seu texto de forma engraçadinha,
taca lá no último parágrafo o Afinal. Mais
ou menos isto: Afinal, ele diz que não é de hoje
que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá".
|