Homem obriga reféns a
tocar musica brasileira
durante cinco horas

Por Castor Netto
Subeditor de Cartografia e Microfilmes

Alfredo Souza Tamandaré, poeta, compositor e economista desempregado de 56 anos, que disse depois à polícia ser "um dos muitos brasileiros insultados com o lixo musical que as emissoras de rádio lançam diariamente nos ouvidos da indefesa população", invadiu ontem os estúdios da Rádio SóBrasil nesta capital e, durante cinco horas, manteve como reféns dois funcionários. Durante esse tempo, ameaçou "partir para a violência" e exigiu que o operador de som e um locutor tocassem e anunciassem apenas músicas brasileiras. Além disso, obrigou o encarregado do arquivo musical a destruir 387 gravações de conjuntos de rock nacionais e internacionais.

Embora a maior parte da grande audiência da emissora não tenha percebido nada de anormal, alguns ouvintes ligaram, principalmente no horário do que seria o programa "Let's Rock and Dance and Howl". Um ouvinte telefonou e perguntou indignado: "Hei, que droga de música é essa que vocês estão tocando sem parar?"

Enquanto Tamandaré se mantinha trancado com os reféns, os responsáveis pela emissora só foram perceber o que acontecia horas depois, graças à funcionária Maria Divina da Silva. Responsável pela cozinha, ela serve cafezinhos para a equipe, foi até o estúdio e, pelo vidro, viu o sonoplasta Chico Sá e o locutor Cid Nogueira assustados, enquanto o invasor, de costas, destruía fitas, gravações e CDs.

Momentos terríveis

Maria Divina contou depois que desconfiou de algo anormal quando não ouviu, pelo som interno da emissora, os rocks apresentados tradicionalmente no programa das 15 horas. "Estou acostumada há muito tempo com essa música de rock que eu adoro. E depois, o Cid prometeu que ia apresentar no programa de hoje uma gravação do conjunto Satan's Sound, o meu predileto. Quando não paravam mais de tocar música brasileira, percebi que tinha alguma coisa errada". Cid Nogueira, que apresenta o programa ao vivo, ainda assustado por ter ficado como refém durante cinco horas,disse que Tamandaré tinha uma grande faca na mão e dizia "Toque música brasileira ou vou fazer uma besteira aqui, estou avisando". Segundo o locutor, "além da tortura de ouvir esse tipo de música sem parar, o louco exigiu também que a gente botasse no ar alguma coisa de Natal. E a única coisa que eu encontrei na hora foi a gravação de Pablo Bordon e Sua Harpa Paraguaia Tocam o Melhor do Natal. Meu Deus, nunca mais quero passar por momentos tão terríveis assim", Nogueira desabafa.

Invasor se entrega

Maria Divina, ao perceber o que acontecia, saiu correndo pelos corredores, mas não encontrou ninguém. Desceu correndo as escadas do quarto andar e foi até o térreo, no bar ao lado do prédio, onde estava o gerente da emissora, Cassiano Marcondes Gomide. De início, ele imaginou que fosse uma brincadeira, mas ao ver Divina tão assustada, chamou a polícia. Os policiais ficaram na porta do estúdio se comunicando via microfone com Tamandaré, tentando fazer com que se entregasse. O policial Alvino Lima contou que o invasor não queria se entregar e dizia, "Só saio depois de tocar mais esta seleção da música mais bela do mundo, a nossa música brasileira". Depois de mais quatro horas e meia, Tamandaré largou a faca, abriu a porta do estúdio e se entregou. Ao ser levado pela polícia, que o considerou um desequilibrado mental, o invasor, sorridente, disse: "Só mesmo assim eles tocam música brasileira".