Pacifista do Iraque
diz que a pomba
está morta como
símbolo da paz

Por Washington Milchome Scholim
Enviado especial à França

Hussein el Salam Gabbana, diplomata e pacifista iraquiano, que durante oito anos foi assessor para Assuntos do Oriente Médio na ONU, voltou para seu país e depois se asilou na França durante a Guerra do Golfo, em 1990, afirma que a pomba como símbolo da paz já morreu e é preciso descobrir ou criar outro objeto, pessoa, ave ou animal para tomar o lugar dela.

Gabbana ilustra sua tese com as guerras que não param de explodir, cerca de 40 por ano, segundo afirma, em várias partes do mundo. "Se formos computar as chamadas miniguerras e revoluções, o mundo não sabe o que é paz há várias décadas. Isso, sem falar naqueles golpes e derrubadas de governos, legais ou não, que acontecem com freqüência em países africanos e que os envolvidos, de um lado ou outro, procuram esconder por questões de interesses mútuos", ele afirma. E acrescenta: sempre como mediadora, usando a pomba como símbolo, a ONU acabou se desgastando, até chegar ao ponto mais baixo e crítico de sua existência, por ocasião da guerra e da invasão do Iraque pelos EUA.

Comida ou devorada

Ironicamente, em sua casa no interior da França, Gabbana, de 67 anos, tem uma grande coleção de pássaros, sua paixão, e as pombas ocupam um lugar de destaque no seu viveiro, que no total conta com 243 aves de oito países, que lhe foram presenteadas por amigos e até por desafetos. Como Saddam Hussein, que em l986 lhe deu de presente nada menos que 120 pombas, que Gabbana levou para a França, depois que caiu em desgraça com o ditador do Iraque.

O diplomata iraquiano afirma que, embora a pomba seja símbolo religioso há séculos e mais recentemente como símbolo da paz, há muito perdeu sua representatividade.

"Onde houve guerra, nos últimos 20 anos, lá estava a pomba da paz, em bandeiras, cartazes e flâmulas. Para que, se em muitos países ela já estava desmoralizada?", ele pergunta. "Quando as pombas não são comidas por populações famintas, como na África, são devoradas pela águia americana, sempre predadora, sempre destruidora", conclui Gabbana.