Hippie mineiro diz
que anos 60 foram
o "topo" em toda a
história do mundo

Quem conhece o senhor de roupa de hippie americano dos anos 50, cheio de colares, de barba branca, vendendo bugigangas na feira dos domingos, na Praça da República, em São Paulo, não imagina sua agitada história. Seu nome é Bert Mosk (na verdade, Bertoldo Amado Moscardini), de 65 anos, natural de Caratinga, Minas Gerais.

"Já fui tudo, fiz de tudo, experimentei tudo, agora veja onde fui acabar", ele se lamenta. "Sempre fui rebelde e contestador. Em 1958, quando eu tinha 17 anos, rompi com a família e resolvi conhecer o mundo. Saí de Caratinga e fui pegando carona até San Francisco, no Estados Unidos, pois era lá que as coisas aconteciam de verdade, tudo estava mais de 20 anos na frente do resto do mundo. Levei quatro meses na viagem, mas valeu o sacrifício E vou dizer mais: ainda hoje San Francisco continua sendo a capital internacional de tudo que é avançado. Veja só a atual explosão sexual dos gays, que finalmente conseguiram uma velha conquista, se casar dentro da lei. Mas nunca mais vai haver outra década como a dos anos 60. Foi o topo, o máximo, na história do mundo. Hoje é tudo tão igual, sem surpresa, é só violência e miséria".

Bert afirma que tomou parte em toda a agitação que acontecia na Califórnia, "menos esse negócio de homem", ele faz questão de destacar. "Sempre fui do lado das mulheres. Nos meus 12 anos por lá, tive mais de 160 amantes, entre elas, oito estrelas de Hollywood, onde trabalhei como figurante", ele garante. "A efervescência cultural, sexual e social , os confrontos com a polícia, os protestos estudantis e principalmente as experiências com as drogas. Tomei todas, bebi tudo e, surpresa, sobrevivi", ele garante.

"De vez em quando, aparece uma dor estranha, que deixa minha cabeça toda escura, tipo blackout, meio sem explicação, e aí eu deito na cama ou caio no chão direto. Mas acho que é da idade, não?"

Ele voltou para o Brasil, "mas não para Caratinga",em 1989 e desde então a sua vida está na base do que ele chama de "vai da valsa". "A gente pega o que aparece, mas tá difícil aparecer qualquer coisa. Eu sou formado em sociologia e línguas neolatinas, cheguei a dar aulas em Berkeley, mas e daí? Quem vai dar emprego num país xumbrega como o Brasil a um cara de 65 anos, mesmo com a experiência e cultura que eu adquiri? Se não há emprego para a molecada de20, 30 anos, imagine pra nós, os coroas. O jeito de sobreviver é vender bugigangas nas feiras hippies que ainda existem no Brasil".

Ele ironiza: "Quem sabe se com muita sorte e com a minha barba de 40 anos eu consiga algum emprego lá em Brasília. Pode até ser em bingo, eu não ligo. Se o negócio é barba grande, eu também sou pioneiro.Comecei a usar aos 22 anos. Só agora esses caras do governo descobriram que barba grande é boa pra impressionar o povão. Pobre do nosso Brasil, não?"