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No
começo, não acreditei. Peguei minha Smith-Corona
1956, duas mudas de cuecas e o primeiro avião para o Brasil.
Tinha sabido que deputados e senadores estavam formando quadrilhas
durante a votação do novo salário mínimo.
Cheguei a tempo de descobrir – em meus 30 anos de brasilianista
– que era apenas uma dança e queriam liquidar logo
o assunto e dançar em Brasília e no Nordeste.
Não foi uma viagem à toa, tanto que me rendeu um
belo artigo para o “Weekly News”, de Iowa, muito embora
todos meus leitores duvidem que esse país exista.
Foi emocionante o finca-pé da senadora Heloísa Helena
nos 275 reais. Nem a promessa de ser noiva de Eduardo Suplicy
na dança da quadrilha a demoveram de seu propósito.
O senador Antonio Carlos Magalhães ameaçava votar
contra, se não fizesse a figura do padre, casando um tal
de Paim – ferrenho defensor de um salário mínimo
de quinhentos dólares – com a senadora Patrícia
Gomes.
Opositores do governo mudaram imediatamente de posição
- pelos 260 reais - quando souberam da oferta do Presidente Lula
em doar todo o estoque de aguardente para a feitura do “quentão”.
Um lobby do gengibre foi formado no ato. O Ministro José
Dirceu escavou toda sua querida Passa Quatro, em Minas Gerais,
conseguindo duas toneladas da raiz para a tal bebida típica.
Foi tensa a ordenação dos votos no momento da pipoca.
O Ministro Palocci ofereceu 30 toneladas de soja recusada pela
China. Ou pipoca ou um salário de 275 reais, ouviu de volta.
Um avião com todos os pipoqueiros de Ribeirão Preto
seguiu imediatamente para o Nordeste e o assunto foi resolvido.
O senador Pedro Simon não queria abrir mão da bombacha.
Recusava-se a vestir o terno curto com remendos. A promessa de
fazer par com a Rita Camata na dança, deu mais um trunfo
ao governo Lula.
De negociação em negociação, o governo
foi conseguindo o número de votos suficientes para a aprovação
do salário mínimo em 260 reais.
A coisa emperrou um pouco na questão da batata doce. Uma
corrente mais elitista de parlamentares, dada a gestos finos,
condenava o efeito flatulento do legume, orientando seus pares
que fosse feita uma votação à parte, excluindo
de vez tal ingrediente dos festejos juninos.
No que teve o apoio do Partido Verde, alertando para os efeitos
de tais gases no buraco de ozônio.
Resolveu-se que um lugar cercado e ao ar livre – logo batizado
de Gasômetro de São Pedro – fosse obrigatório
em toda festa junina que se preze.
Grupos e pares foram se formando aos poucos, quadrilhas foram
sendo montadas e o governo conseguiu sua vitória. O trabalhador
brasileiro vai ganhar mesmo 260 reais por mês, numa dança
à parte.
Aviões lotados seguiram para a festa com gritos “de”tour”,
“olha a chuva” e “é mentira” e
então eu fui para o hotel, dando para o motorista do táxi
uma nota de cinco dólares, a diferença no salário
mínimo que causou toda a confusão e me fez perder
uma pesca de trutas em Iowa.
(*)
Stan Oliver Laurel viajou ao Brasil, para acompanhar
a votação do salário mínimo e participar
de festas juninas, a convite da empresa Nosso Arraial, um dos
maiores fabricantes de paçocas, pés-de-moleque,
cocadas e milho de pipoca de Brasília. A empresa prepara
agora o lançamento nos EUA e Europa de quentão engarrafado. |