|
Correspondente
na Europa
Os
heróis morrem e por isso merecem a glória e o repouso.
Já os vilões, que sempre sobrevivem, comem batatas,
salsichões e garçonetes. Portanto, são eles
os vencedores e não os heróis. “Ao vencedor
– e vilão, acrescento - , as batatas”, já
dizia Machado de Assis.
Se você quer conhecer o caráter de alguém,
diz a sabedoria popular, dê-lhe poder ou dinheiro. O resultado,
aqui, na Suíça, ou aí, no Brasil, é
sempre o mesmo: sucesso, bajulação, fama e mulher
às pampas (Marias chuteiras, Marias roqueiras, Darlenes
e Jacquelines).
O ser humano, medíocre e vaidoso, gosta disso. E também,
é óbvio, de uma cervejinha gelada; de um tira-gosto
cortadinho; e de uma mulata “pret-a-manger”. Isso
é tudo o que o “self-made-man”, o popular “eu-me-fiz-por-si-memo”,
aspira, na vida. É o medíocre-beleza, fiel escudeiro
do maluco-beleza, da composição de Raul Seixas e
Paulo Coelho.
Tais reflexões me vieram à cabeça, quando
li, na mídia italiana e européia, a notícia
da morte de Nino Manfredi, talvez o último grande comediante
de uma geração brilhante de atores peninsulares.
A lista é longa. Vou citar alguns (correndo o risco de
esquecer de vários outros): Totó, Aldo Fabrizzi,
Alberto Sordi, Vitório Gassman, Ugo Tognazzi, Peppino De
Filippo, Adolfo Celli etc.
Pois é: o sonho acabou, na década de 80, como previra
John Lennon. E, agora, a comédia italiana também.
O que nos resta é o espetáculo da realidade, triste,
sem humor.
Dizem que um dos problemas do mundo, hoje, é a ausência
de líderes carismáticos como os havia em profusão
antigamente. Não apenas eles nos fazem falta. Há
quanto tempo, por exemplo, não temos comediantes à
altura de um Totó, de um Fernandel, de um Cantinflas, de
um Oscarito?
Todos eles tinham em comum o fato de terem pinta de heróis,
mas não passarem de simpáticos e trapaceiros vilões.
E era exatamente isso que os tornava reais. Eram meio heróis
meio bandidos. Pensavam como cavalheiros, mas agiam como vilões.
Foi num festival de cinema de Locarno, na década de 70,
ao qual tive a sorte de assistir, que conheci alguns dos grandes
da comédia italiana. Na badalação comum nesse
tipo de mostra, era fácil encontrá-los, à
noite, em restaurantes, bares e cafés.
Um amigo, de Hamburgo, produtor e distribuidor de filmes italianos,
na Alemanha, Hans Friederich Schloendorff, apresentou-me Mário
Monicelli, Ettore Scola, Dino Risi, Bertolucci, os irmãos
Taviani, Gillo Pontecorvo, dentre outros, todos presentes ao festival.
Foi uma semana inesquecível. Como agregado, participei
de um jantar informal, promovido pelo amigo germânico, ao
qual estavam presentes Scola, Gassman, Manfredi, Risi e Stefania
Sandrelli. Pensei comigo: “Nunca mais terei uma chance como
esta”.
Entre a sobremesa e o café, a descontração
pareceu-me ideal. Enchi-me de coragem e perguntei diretamente
a Scola por que, em seu filme, “Nós Que nos Amávamos
Tanto”, o amigo rico (Gassman) dá uma “cantada”
na mulher (Sandrelli) do amigo pobre (Manfredi), após encontrar
o casal numa fila de inscrição para candidatos à
moradia.
O diretor parou um instante, no meio de um gole de café,
e disse: “Pergunte a eles”, olhando para Gassman,
Manfredi e Stefânia, que já degustavam um licor de
aniz, conhecido, aqui, como “Sambucca”.
Manfredi respondeu primeiro: “Bem, se eu, na vida real,
ou na ficção, vivesse situação semelhante
à de Vitório no filme, faria o mesmo”. Em
seguida, a divina Stefania Sandrelli, do alto dos seus 30 aninhos,
incompletos, acrescentou, enquanto estalava a língua, saboreando
o último gole do licor: “C’est la vie”,
mon chéri”.
Ao perceber meu espanto com seu aparente cinismo, acrescentou,
em italiano: “Meu caro: três coisas mexem, desde a
origem dos tempos, com a cabeça dos homens: poder, riqueza
e mulher bonita”.
Mais filosófico, Gassman ponderou: “A questão,
no filme, é a seguinte: ou você fica com a amizade,
ou você fica com a beleza. Uma coisa exclui a outra. Se
meu personagem não “cantasse” a mulher do amigo,
o filme viraria um conto de fadas. Raras são as vezes,
como essa, em que a realidade vence e ficção. Aqui,
a arte imita a vida e não o contrário”.
“Quer dizer”, retruquei, indignado, engasgando, ao
mastigar os grãos de café torrado, que os italianos
põem em cima do licor, “que a amizade não
vale nada?” “Vale, sim”, respondeu Dino Risi,
que até então, ouvira tudo calado. “Vale muito,
mas só na ficção”.
Desde esse episódio, passei a entender melhor a essência
anti-heróica e vilã, embora profundamente humana
e arraigada no cotidiano, da comédia italiana.
Vocês já imaginaram, leitores, se, de repente, Fellini
resolver fazer uma comédia para distrair São Pedro?
Uma espécie de “Quarteto Irreverente”, com
Sordi, Manfredi, Gassman e Tognazzi? As mulheres, para completar
o elenco do filme, ficam por conta da imaginação
e do gosto dos leitores.
(*)
Werner Ghestaldo é crítico de cinema,
apátrida, morou durante algum tempo em São Paulo
e atualmente vive em Lugano, na Suíça. |