O último tango de Néstor

A Argentina, por agouro, profecia ou maldição, parece eternamente condenada a viver um tango em que tragédia, mau gosto e farsa se alternam aleatoriamente. O grande Borges dizia que o tango “é um estilo de vida”. Acertou em cheio.

O último tango, cantado por Carlos Gardel, em seu derradeiro espetáculo, na Colômbia, antes de embarcar naquele maldito avião, foi “Tomo y Obligo”, que, traduzido livremente significa algo como “Faço e Aconteço”.

Parece que, após a morte de seu maior ídolo, os argentinos “chutaram o balde” , como dizem os brasileiros, resolveram viver perigosamente, e pagar para ver.

Mas tudo tem limite. Esse limite foi atingido, em meados de janeiro, em Roma, quando o secretário de Finanças argentino, Guillermo Nielsen, em um dos programas mais populares (tipo Chacrinha, aí no Brasil) da RAI (Rádio e Televisão Italiana), pediu perdão aos credores italianos pelo calote argentino.

Para refrescar a memória do leitor do SacolãoBrasil: o governo argentino unilateralmente (sem ouvir credores internos e externos) rebaixou uma dívida de aproximadamente US$ 100 bilhões para cerca de US$ 30 bilhões.

Em outras palavras, credores que tinham comprado títulos, emitidos pelo Tesouro daquele país, não receberem nada, nas datas de vencimento desses papéis, e foram surpreendidos pela proposta do governo argentino de trocar tais títulos por outros de menor valor.

Ou seja, quem, por exemplo, tiver mil dólares a receber, em papéis velhos, terá de se contentar com apenas 250 dólares, a serem pagos em novos prazos de vencimento.

É óbvio que credores externos (italianos, alemães, japoneses, americanos e suíços, dentre outros) reagiram muito mal à proposta portenha, que equivale ao maior calote internacional dos últimos 50 anos.

O “tango”, ensaiado por Nielsen, posteriormente duramente admoestado pelo presidente Néstor Kirchner, diante das câmeras da RAI, foi uma tentativa de diminuir a raiva dos 450 mil italianos que, ao comprarem títulos argentinos, sem saber, estavam caindo no “conto da Patagônia”.

Ninguém gosta de ser tratado como otário. “Malandro é malandro, mané é mané”, ensina um famoso samba do recém-falecido Bezerra da Silva, aí no Brasil.

Um famoso tango argentino, “Mano a Mano”, se não me falha a memória, traduz, à perfeição, o sentimento de raiva, quase ódio, do cidadão comum, quando – tal como o marido traído - , finalmente, se dá conta de ter sido enganado, em geral, por uma mulher do tipo fatal.
“Lo que más bronca me dá, es haver sido tan gil”, que, traduzido do “lunfardo”, espécie de dialeto popular, falado em Buenos Aires, significa: “O que mais me deixa furioso da vida, é eu ter sido tão otário”.

Os leitores podem imaginar a indignação e a raiva que tomaram conta dos 450 mil italianos, dos 100 mil alemães e dos 50 mil suíços, aqui na Europa, ao se darem conta de ter caído num dos maiores contos-do-vigário da história da humanidade.

As reações dos credores variaram de acordo com o tamanho do calote. Os italianos, maiores credores em número e em valor, foram os mais radicais. Alguns chegaram a sugerir ao “Cavaliere” Berlusconi que convencesse Bush, os britânicos, fiéis aliados dos americanos; alemães, italianos, nipônicos e suíços a formarem uma força militar internacional para ocupar a Patagônia.

Os “aliados” permaneceriam naquela região da Argentina, dando susto nos pingüins, até que Kirchner e seu ministro da Economia, Roberto Lavagna (quadro negro, em italiano), pagassem o que devem aos credores externos até o último centavo.

Alguns italianos, mais velhos e saudosistas, evocaram os tempos do “Duce” Mussolini, que, curiosamente, anda em alta hoje, na Itália, para sugerir uma nova “expedição punitiva”, termo muito usado pela diplomacia fascista, só que, desta vez, contra a Argentina, e não mais, como outrora, contra a pobre Abissínia (atual Etiópia) ou a Espanha, na época da guerra civil.

Nipônicos, alemães e suíços, mais moderados, recomendaram o arresto da parte do rebanho bovino da Argentina (mais de 60 milhões de cabeças de gado) correspondente ao valor dos títulos da dívida em poder dos credores externos.

Algo parecido foi feito, no Brasil, em 1986, durante o Plano Cruzado, quando a Sunab, entidade que fiscalizava preços, na época tabelados, autorizou o governo a arrestar bois no pasto para garantir o abastecimento de carne.

Realistas, credores americanos defenderam o boicote às exportações argentinas de carne, trigo e soja. Além disso, pregaram a suspensão de quaisquer empréstimos, financiamentos e investimentos destinados à vizinha do Brasil até que o governo resolva honrar o que deve aos credores externos.

O “Algemeine Zeitung”, de Zurique, equivalente suíço ao “Financial Times”, de Londres, resume, em editorial, a indignação dos credores, após o calote anunciado por Kirchner e Lavagna. “Será que eles não aprenderam nada com a Guerra das Malvinas?”, pergunta o editorialista.

Estava terminando este artigo, em minha casa, em Lugano, na Suíça, quando fiquei sabendo, após a leitura semanal de jornais e revistas brasileiros, que um industrial argentino, de nome Héctor Méndez, chamou o ministro brasileiro Luiz Fernando Furlan de “criador de galinhas”.

Ao comentar o episódio com Edmundo José Morgado, correspondente do “Zero Hora” em Milão, por telefone, ele reagiu, indignado: “Esses gardelões não tomam jeito. Além de arrogantes e trapaceiros, ainda são boquirrotos”.

E, ao despedir-me dele, deixou no ar uma pergunta filosófica. “Como é possível a Argentina ter produzido, em tão pouco tempo, e, contrariando tanto a índole do seu povo, gênios, em diversas áreas de atividade, do porte de um Borges, Cortázar, Che Guevara e Piazzolla?”

A resposta talvez esteja em alguns versos de outro famoso tango, “Cambalache”, uma espécie de “hino nacional” de trambiqueiros, não só argentinos, mas de todo o mundo. A certa altura, diz a letra do tango: “Él que no llora, no mama; él que no afana, es un gil”.

Em bom português: “quem não chora, não mama; quem não rouba (afana, existe a palavra, na gíria brasileira, proveniente do”lunfardo”) é um otário”.


* Werner Ghestaldo é jornalista e escritor apátrida, reside atualmente na Suíça, mas viveu durante alguns anos entre São Paulo, Buenos Aires e na Cidade do México, onde fez anotações para o livro “Admirável Mundo Lúmpen – Roteiro de um Cucaracha Aprendiz”, publicado, em italiano, pela Editora Feltrinelli, de Milão.