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Um
espectro, como disseram Marx e Engels, no Manifesto Comunista,
ronda a Suíça: o espectro da pobreza! Antes que
a simpática e progressista colônia suíça,
radicada aí no Brasil (meia dúzia de famílias
em Nova Friburgo, no Rio; e mais umas 20, no Planalto Paulista,
zona Sul de São Paulo), corra ao consulado, em pânico,
explico melhor.
O IBGE daqui divulgou um levantamento, realizado no segundo semestre
de 2004, em todos os cantões suíços, dando
conta de que, se os descendentes de Guilherme Tell teimarem em
esnobar a União Européia, em duas gerações,
ou seja, em 50 anos, a renda “per capita”, hoje próxima
dos US$ 30 mil, cairá pela metade.
Poucas coisas deixam os suíços mais preocupados
do que a perspectiva de perder renda. Acontece que o segundo maior
pesadelo deles é o de algum dia terem de vir a repartir
seu paraíso com turcos, bósnios, búlgaros,
albaneses, croatas, sérvios e montenegrinos, dentre outros.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Para manter o seu
atual e altíssimo padrão de vida, a Suíça
teria de entrar para a União Européia. Mas em dois
plebiscitos, já realizados nesta década, a maioria
dos cidadãos locais disse não.
Se, por outro lado, algum dia, se convencerem de que, finalmente,
terá chegado a hora de dizer sim à atual Europa
dos 25, eles terão de se habituar ao convívio com
vizinhos de, digamos assim, segunda categoria, para usar uma expressão
menos ofensiva.
O estudo, publicado na secção de economia do “Zurich
Zeitung”, uma espécie de “Financial Times”
local, no início de fevereiro, também se preocupou
em ouvir empresários, políticos, donas de casa e
cidadão comuns, moradores de todos os cantões do
país, sobre a possibilidade de seus netos ficarem mais
pobres.
É curioso comparar as reações típicas
dos moradores dos cantões de expressão alemã
(cerca de 65% da população); francesa (20%), italiana
(12%), romanche e bilíngües (3%).
Para os suíços que falam alemão, se realmente
daqui a 50 anos a Suíça ficar mais pobre (eles estão
respondendo por seus netos), e ela resolver entrar na União
Européia, a saída será migrar para Áustria,
Eslováquia, República Tcheca ou Hungria.
Isso na impossibilidade de migrarem para Suécia, Noruega,
Dinamarca, Finlândia ou Islândia. Curiosamente, a
Lapônia (terra natal de Papai Noel) não foi lembrada.
Na opinião do segundo grupo mais numeroso (o dos suíços
que falam francês), a eventual perda de renda do país
será ótima para aproximá-lo das nações
mais pobres da Europa e até mesmo das do 3º Mundo.
Lembre-se o leitor do SacolãoBrasil que
os franceses foram os inventores dessa expressão, na década
de 60.
Já para os suíços que se exprimem em italiano,
se o país perder renda no futuro, será ótimo
porque, com menos dinheiro, e menor preocupação
em ganhá-lo, seus descendentes terão mais tempo
livre para fazer coisas mais interessantes.
Bem, mas quais seriam essas coisas mais interessantes a fazer?.
As respostas, em ordem decrescente, foram: fazer amor, dedicar
mais tempo às artes, fazer algum tipo de esporte diferente
de contar dinheiro e, por último, mas nem por isso menos
importante, o “dolce far niente”.
Ou, como dizia o repentista pernambucano, Ascenço Ferreira,
“hora de brincar, brincar; hora de comer, comer; hora de
vadiar (fazer amor, em “nordestês”), vadiar;
hora de trabalhar, perna pro ar, que ninguém é de
ferro”.
Eis aí um bom tema para antropólogos amadores ou
desempregados: quais as razões de tamanha afinidade entre
nordestinos brasileiros e ítalo-suíços? Com
a palavra, o ítalo-paulistano-suíço Reinhold
Badvogel.
Os dois últimos grupos (os que falam romanche e aqueles
que se expressam em mais de uma língua, em todos os cantões)
responderam, respectivamente, que seus netos simplesmente comerão
menos queijo, uai; e que seus descendentes terão de ser,
no mínimo, trilíngües.
Ultimamente, andam acontecendo coisas estranhas por aqui. Por
exemplo: a Procuradoria-Geral de Zurique, um dos maiores centros
financeiros da Europa e do mundo, está preocupada com o
fato de a cidade estar se tornando “a capital da morte”.
É que, em 1998, foi fundada naquela cidade uma entidade
chamada “Dignitas”, que faz em média uma morte
assistida por semana. Encaminham-se para lá, além
de pacientes desenganados suíços, outros provenientes
de todas as partes do mundo.
Não pense o leitor do que os juízes de Zurique estão
preocupados com princípios éticos da eutanásia.
Longe disso. É que riqueza e morte não combinam.
Outro exemplo: a partir de março, o governo suíço
vai proibir o uso do cânhamo na ração dada
às vacas, cabras e ovelhas do país. O cânhamo,
como o leitor deve saber, é uma planta que tem o mesmo
princípio ativo da maconha, a “cannabis”.
Acontece que testes de qualidade, realizados periodicamente com
o leite de vacas, cabras e ovelhas, acusaram a presença
da substância psicotrópica THC (princípio
ativo da maconha).
A União Suíça de Agricultores deu seu total
apoio à medida. O especialista em agricultura, Ph.D. em
vacas, tetas, leite e derivados, Thomas Jäggi, disse ser
necessário preservar, “a qualquer preço, a
qualidade do leite suíço, sobretudo porque o país
é um grande exportador de queijo”.
Ou seja, acabaram com o lazer das pobres vacas, cabras e ovelhas
suíças!
*
Werner Ghestaldo é
jornalista apátrida,
radicado em Lugano, na Suíça. É autor de
vários ensaios publicados em periódicos de Milão,
São Paulo, Cidade do México e Nova York, dentre
os quais “Cheese and Milk Blues” e “O Sorriso
da Vaca Preta”.
(**) Colaboraram neste artigo como consultores Walter
Amadeus Braun, Ph.D. em barro, e Bob
Dylan. |