Mulher de deputado corrupto
faz costura para sobreviver

Por Myra Bolanti
Sucursal de Brasília

A vida de Maria Emília Zavardal mudou para sempre, “e para pior”, como ela afirma, depois que seu marido, o deputado Elias José Zavardal, teve seu mandato cassado por corrupção, envolvido com a quadrilha que vendia a merenda escolar e a revendia a restaurantes populares.

Beneficiado por um habeas corpus, o deputado fugiu do Brasil no fim do ano passado e está sendo procurado em vários países. A família de cinco pessoas, o casal e três filhos adultos, vivia numa bela mansão no condomínio Lakeside, no exclusivo Lago Sul em Brasília, e desfrutava de muitos privilégios. Além dos concedidos pelo governo, Zavardal era dono de dois shoppings centers, 14 imóveis, seis bingos, quatro automóveis, um jatinho, uma lancha de 45 metros, além de diversos cavalos, num haras nos arredores da capital.

Então, de repente, o império familiar veio abaixo. Acusado por um sócio numa rede de drogarias que vendia remédios falsificados, o deputado foi investigado em segredo pelo Ministério Público, que acabou descobrindo seu envolvimento em outros negócios escusos, entre eles, o desvio de verbas do material escolar, do qual ele era o principal encarregado numa comissão na Câmara.

Todas as acusações foram comprovadas e Zavardal foi expulso por unanimidade do Partido da Unificação Nacional (PUN), do qual era vice-líder. Ele deveria prestar depoimento em novembro do ano passado, mas conseguiu fugir para o exterior. Dois meses depois, seus dois filhos, Dirceu e Jesuíno, desapareceram também. Eles eram assessores especiais de Zavardal na Câmara, com salários de 18 mil reais cada um. A polícia acredita que tenham se juntado ao pai em algum país europeu.

Drama familiar

Com todos os bens do marido confiscados, a vida de Maria Emília, de 52 anos, pouco a pouco foi se complicando. As economias logo acabaram. O terceiro filho do casal, Luiz Inácio, de 18 anos, decidiu ficar com a mãe. Ele ajuda no orçamento doméstico, como músico do conjunto de rock The Deafens, muito popular nas festas dos filhos de deputados em Brasília.

“Os amigos do Elias no início me ajudaram, mas pouco depois, os que viviam tirando vantagens do prestígio do meu marido, desapareceram. A solução foi voltar à minha profissão do tempo de solteira, costurar para fora”, ela conta.

Diz que trabalho não falta e dedica cerca de cinco horas por dia costurando.

No sofá da sala de seu pequeno apartamento na capital, sorridente e confiante no futuro, Maria Emília revela que, não fosse pelo auxilio desinteressado de três amigas queridas, todas mulheres de deputados, não conseguiria sobreviver junto com o filho.

“Na semana passada, tive uma grande alegria, uma prova da amizade sincera de uma amiga, que conversou com o marido e eu acabei ganhando a concorrência para fazer as cortinas de 135 gabinetes e as toalhas de mesas e guardanapos de todos os restaurantes do Congresso.”

Emocionada, quase chorando, Maria Emília diz: “Segundo contam, há muita coisa errada em Brasília, até mesmo graves, mas há também pessoas honestas e solidárias, como minhas amigas, que estão me ajudando a vencer meu drama familiar e econômico”.