Sobre sinos e cobras

Se eu for esperar as badaladas de sinos de Natal e de Ano Novo, certamente não passarei as festas com minha santa esposa Mary Ann em Iowa, Estados Unidos.

Falo figurativamente, claro, pois em tempos de antanho eram os sinos que anunciavam qualquer acontecimento importante.

Hoje apenas badalam as revistas semanais, com um novo escândalo a cada sete dias.

Minha máquina de escrever Smith-Corona 1956, freme a cada badalada impressa, à espera que meus cansados e calejados dedos registrem mais uma coluna para o jornal Weekly News, onde atuo como um brasilianista desacreditado.

Se eu for esperar badalar o sino que anunciará a morte política do Rasputin da república petista, ficarei por aqui.

O homem já recebeu doses cavalares do veneno destilado das víboras que rastejam em corredores do Congresso, muito delas enrodilhadas em malas pretas que o próprio eminente pardo dizem ter feito circular, peças fundamentais de todo o escândalo político.

A cada picada, corre ele ao Superior Butantã Federal onde consegue o antídoto de não menos venenosas serpentes togadas.

E esbraveja e se debate, conseguindo a adesão de serpentes de toda a classe política e artística.

Ganha tempo essa sucuri-mor, que já se enrodilhou em muita gente boa e, dizem as más línguas bifurcadas, mandou outros desta para melhor.

As cascáveis apanhadas com a boca na botina – onde elas adoram se esconder – e renunciaram ao bom veneno semanal que, em Brasília, é de terça à quinta, ainda dão pequenos botes colocando outras cobras amigas e parentes em postos chaves de estatais. E voltarão eleitas no próximo sufrágio do serpentário.

“Covil de serpentes?”, brada o incrédulo presidente, que também nega carrapatos maculosos, frangos gripados, mosquitos da dengue e o inofensivo vírus da aftosa.

“São cobras capitalistas que silvam calúnias e mentiras”, rebate ele, como uma cobra-cega indignada.

“São ofídios de mau agouro”, completa, antes de voar para mais um encontro com uma anaconda venezuelana de bom tamanho.

Gosta de rastejar com grandes e não menos venenosas, como algumas pítons africanas. Também se enrodilha vez outra com uma espécie rara e barbuda, famosa pela longevidade em anos e discursos, numa ilha do Caribe.

Balança o guizo em acordes amigos para a grande serpente do Norte, cuja couraça é capaz de agüentar os cinqüenta graus positivos dos desertos do Iraque.

Enquanto aqui, frente às câmaras de TV, outras não menos peçonhentas se enrodilham em nós desatáveis apenas com a boa farinha de trigo usada em pizzas.

Por quem dobram os sinos, me pergunto eu?

Para os ratos, deduzo, alimento preferido dos ofídios, como deve se sentir todo o povo brasileiro.

Está mais que na hora de parar com esse badalar. Que alguém mostre o pau.

As serpentes são unidas, como não.


* Stan O. Laurel ministrou cursos de inglês e sociologia política em vários países da Ásia e África, onde conheceu algumas das cobras mais venenosas do mundo. Mas confessa que as brasileiras são as mais peçonhentas e perigosas.