Firma
de telemarketing
declara guerra ao
“sinistro gerúndio”
Por Pascoal C. Netto
Editor do Boa Língua
Rosineide
Azevedo, 26 anos, que trabalha há oito anos no telemarketing
de uma empresa que vende cosméticos está preocupada
com a idéia de ter de fazer um curso de português
para melhor atender a clientela. Ministrado por três professores
contratados pela empresa, o curso tem o objetivo de fazer as
54 funcionárias do setor aprimorar o diálogo com
os clientes, falando português correto e eliminando erros
e vícios antigos, um deles, o notório “estar
fazendo, estar enviando”, principal alvo de todas as críticas
ao telemarketing.
“O que há de errado com esse negócio, que
os professores chamam de genúndio, gerúndio, sei
lá o quê?”, pergunta Rosineide preocupada.
“A vida inteira falei assim e todo mundo me entende, os
fregueses, as amigas aqui do telemarketing e o meu namorado.
Agora inventaram esse curso que está me deixando preocupada.
Eu fiz só até a segunda série e tive de
deixar a escola para trabalhar. Preciso do emprego. Não
sei se vou passar”.
“Sinistro
vilão”
Como
ela, várias outras moças e rapazes do telemarketing
estão preocupados, alguns por deficiência no uso
da língua portuguesa, outros por falta de tempo ou, como
André de Souza, porque está tão acostumado
a usar o “sinistro vilão gerúndio”
(como o chama um dos professores da empresa, Tomé Vilhena),
que a vida toda falou assim ao telefone com os clientes e no
dia-a-dia.
“Até no meu curso noturno falo ‘vou estar
escrevendo, vou estar fazendo a lição’
e vários outros e nenhum professor nunca me corrigiu.
Agora inventaram esse curso pra atrapalhar a vida da gente.
O jeito é fazer, pois me disseram que os que recusarem
vão estar sendo despedidos”, desabafa André.
Até
o presidente
Silvino
Arruda, 43 anos,subgerente do telemarketing, que também
tem de participar do curso, explica que vai fazê-lo porque
a direção da empresa exigiu, mas não vê
em que isso vai melhorar as vendas.
“Vou estar participando porque a direção
ordenou, mas acho uma bobagem, perda de tempo e dinheiro. Há
15 anos todo mundo aqui na firma fala assim, e vamos vendendo
muito bem, e agora eles vêm com essa invenção.
Há muita coisa mais importante para mudar neste país
do que esse negócio do tal gerúndio”, se
queixa Silvino.
E arremata com ironia: “Será que vão obrigar
o presidente a fazer o curso também? Falar errado e besteira
é com ele mesmo”.