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Já
pesquisei muito para entender por que as paixões, frustrações,
namoros e outros sentimentos ligados ao coração
chegam ao seu ponto mais inflamado no mês de dezembro. É
mais ou menos simples: após 365 dias de batalha dura, no
trabalho, em casa, nos relacionamentos humanos, as pessoas, lá
no íntimo, querem compensações, prêmios,
resultados e mesmo milagres para seus anseios e decepções.
É quando aquela parte mais profunda, mais sentimental e
romântica do coração fica sensível,
à flor da pele.
Como exemplo, escolhi a consulta mais emocionante e emocionada
deste mês, a da leitora que se assina Coração
em Pedaços, de Curitiba. Sendo um assunto
delicado, decidi omitir aqui e enviar por e-mail o que penso do
caso e o meu conselho. Deixo a solução para minhas
leitoras. Eis o que ela conta:
“Miss
Heart, não sou muito de me abrir, ainda mais nas questões
sentimentais, mas cheguei ao limite da abnegação
e renúncia. Por isso venho em busca de orientação
e conselho, ciente de sua sabedoria e experiência. Conheci
alguém dez anos mais velho e percebi logo que era o homem
de minha vida. Parece arriscado, mas o coração às
vezes é mais sábio que a razão, e mergulhei
de corpo e alma no relacionamento”.
Ele vivia me fazendo juras de amor e até mesmo chorou,
de tão emocionado, quando propus morarmos juntos. Viaja
muito e quando se ausenta é o inferno para mim. Pareço
até uma adolescente sonhadora, aguardando impaciente chegar
a segunda quinzena do mês, quando retorna de suas viagens
de negócios. Mas no mês passado, não voltou.
Esperei, esperei, chorei e chorei, imaginando que algo ruim tivesse
acontecido.
Na véspera do Natal, em desespero, consegui com um amigo
do trabalho dele o endereço do meu amado. Na frente do
prédio, vi a janela iluminada no apartamento. Meu coração
quase saiu do peito. Subi correndo, mas antes de tocar a campainha,
encostei o ouvido na porta e lá de dentro vinham gargalhadas,
música estridente e bater de copos em comemoração.
Tomei coragem, apertei a campainha, a porta se abriu e dei um
grito de horror. Um travesti, de dois metros de altura, todo fantasiado
e pintado, me olhava sorridente.
Saí em disparada, chorando e soluçando, e profundamente
decepcionada. O que pensava ser o homem de minha vida era gay,
travesti, tarado, sei lá mais o quê.
Passei uma semana no inferno em funda depressão.
Uma tarde, quando voltava do trabalho, lá estava ele me
esperando. Atravessei a rua, ele veio atrás, fugi para
uma loja, e então me segurou pelo braço. Implorou
que ouvisse sua versão. Sem coragem de olhar para ele,
fiquei ouvindo. Me contou que o travesti é seu irmão,
mora no Rio e veio visitá-lo no Natal. A roupa toda esquisita
era para uma festa a fantasia, nada mais. Para demonstrar um pouco
de boa vontade, eu insisti que queria ouvir a história
da boca do irmão dele. Aí, me disse que não
ia dar porque o irmão havia partido num cruzeiro marítimo
pelo Caribe e só voltaria um mês depois.
Fiquei de aguardar a volta do irmão e pedi que me procurasse
então. Mas a magia do romance já tinha acabado.
Nunca
mais o vi. De vez em quando, porém, a dúvida me
assalta: a história seria verdade ou não?
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