| Andei
longe do Brasil algumas semanas e meus leitores do Sacolão
reclamaram. Meu computador ficou cheio de e-mails perguntando
por que sumi da minha coluna. É que fui para a Bélgica
fazer um curso rápido de barman, numa das melhores escolas
do gênero em todo o mundo.
O curso avançado chama-se Tender is the Bar, um trocadilho
com aquele belo drama romântico “Suave é a
Noite”. Quem se lembra? Só mesmo românticos
incuráveis como eu e alguns poucos outros.
O curso foi mais um aperfeiçoamento na minha profissão,
mas por enquanto não vai ter muita utilidade no Brasil,
onde, com exceção dos bares elegantes e muito caros,
geralmente instalados em hotéis internacionais, o grande
público, a chamada galera, bebe é cerveja e caipirinha,
e olhe lá. Bebe bem e bastante, mas só essas duas.
Dono de três bares, dois em São Paulo e um no Rio,
eu aprendi que a galera daqui bebe e fala, grita e canta, muitas
vezes apronta uma daquelas, mas isso é raro. Ao contrário
da Bélgica e da Europa, onde na maioria a turma é
civilizada, silenciosa, e não faz barulho como aqui. Em
outras palavras, achei aquilo lá uma chatice. Está
certo, civilização é civilização,
mas um gritinho de vez em quando não faz mal.
Para vocês terem idéia de como é lá,
fui a um bar que leva o silencio e a civilidade ao extremo. Chama-se
“Drink Slow and Silent” (Beba Devagar e em Silêncio),
que fica perto de um estádio de futebol e em dia de jogo
fica bombando o dia inteiro.
Pois é, o dono instalou no salão principal um aparelho
estranho, que o maitre (isso mesmo, bar lá tem maitre!)
me disse que é conhecido como medidor de decibel. Funciona
assim: um aviso indica que a zoeira máxima lá dentro
deve ser de18 decibéis. Então, quando o barulho
ultrapassa o permitido, toca uma suave campainha e um sensor localiza
a mesa ou mesas barulhentas. Os transgressores são advertidos,
e o silêncio volta a reinar.
Que coisa, não? Que progresso, que civilização,
que chatice, digo eu!
Fiquei imaginando um aparelho desses num bar brasileiro, onde
berros, músicas e gargalhadas facilmente vão além
de 100 decibéis! De duas uma: ou o bar iria à falência
logo de cara ou o público quebraria o aparelho numa boa.
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