Novas vítimas
da ditadura
também querem indenizações
do governo

Por Ribaldo Tanso
Do caderno Nossa História

Mais de 100 leitores escreveram para o SacolãoBrasil dizendo-se vítimas da ditadura militar e afirmando que têm direito a indenizações do governo, a exemplo de outros brasileiros que receberam recentemente grandes quantias em dinheiro. A maioria citou os nomes dos cartunistas Ziraldo e Jaguar e também do ex-redator de assuntos militares do nosso jornal, Tadeu Macárti, que em 1977 foi chutado por militares durante uma passeata em São Paulo que protestava contra o desmatamento da Serra da Mantiqueira.

Juntamente com os dois conhecidos cartunistas, Macárti foi indenizado pelo governo e recebeu a semana passada 35 mil reais, a serem pagos em dez prestações (impostos incluídos), quantia que ele considerou “ridícula”, segundo declaração publicada em jornais do Rio e São Paulo.

“Fui chutado e humilhado na frente de várias pessoas, e até hoje tenho uma cicatriz na perna, sem falar de um dedo quebrado, quando reagi à agressão e acertei um murro no capacete de ferro de um soldado. Exijo mais. O que faço com essa miséria que me deram?”, Macárti pergunta.

Dinheiro, nada

As notícias nos jornais sobre recentes indenizações desencadearam uma série de protestos e exigências de leitores que afirmam ter sofrido também torturas, agressões e insultos de militares, informantes e seguranças ligados à ditadura.
Cecílio Boanerges, de Recife, diz em seu e-mail que não tem nome famoso como os dois desenhistas, mas, “com certeza, arrisquei mais a minha vida em passeatas de rua do que eles dois, cuja trincheira era numa tranqüila redação de jornal, tomando seus uísques. Quero indenização também, e não é pequena não”.

Outro leitor, João de Albuquerque Figueiredo, de São Paulo, enumera uma a uma as 25 passeatas de protesto de que participou, “arriscando a vida em busca de um Brasil melhor, e tudo o que recebi foi um diploma de mérito dos moradores do meu bairro. Dinheiro que é bom, nada”.

O professor universitário aposentado José Dirceu Genoíno, de 59 anos, afirma em longa carta que fez de sua cátedra, “nos anos sombrios e ameaçadores da ditadura, uma quase inexpugnável fortaleza contra os militares, por meio de palestras, lições, redações e conversas com os alunos. Mas fui traído por uma professora amiga íntima em quem muito confiava. Fiquei preso dois meses e obrigado a ler e decorar manuais de manobras militares, que por pouco não me levaram à loucura.”

Ele brinca e diz: “Além do mais, dizem que sou muito parecido com o Ziraldo, que faturou aquela bolada. Então, mereço ou não mereço também a indenização?”.

Enlouquecedor

Tragicômico é o caso narrado pelo sociólogo Ernesto Médici Silva e Costa, de Porto Alegre, que em 1973 ficou dois meses preso numa cela com vinte pessoas e tinha como punição decorar diariamente várias páginas do livro “Maiores Vultos das Grandes Batalhas Militares do Brasil”. Em seguida, era forçado a contar tudo o que lera para os companheiros presos.

“Foi enlouquecedor”, ele relembra. “Mas o pior de tudo era uma vitrola que tocava noite e dia, sempre a mesma música, Eu Te Amo, Meu Brasil, de Dom e Ravel. Soube de três companheiros de cela que piraram de vez. Ainda hoje, sempre que ouvem a tal música, começam a gritar e atirar coisas nas pessoas.”

Silva e Costa arremata no e-mail. “Não quero ser melhor que ninguém, mas se esses tormentos que enfrentei não merecem uma gorda indenização, então não sei mais nada”.