| Na
eleição do mês passado fiz um bico que me
rendeu um bom dinheirinho extra. Se eu fosse viver só do
circo, minha família estaria passando fome. Um político
deu uma festa de aniversário para o filho, convidou um
monte de crianças, e os pais, e a coisa acabou virando
um comício para arrecadação de fundos para
a campanha dele.
Nesses
trabalhos extras não gosto de usar minha cara circense,
que é coisa séria e minha marca registrada na profissão.
Então, inventei uma maquiagem nova, mudei de apelido (me
apresentei como Palhaço Votação)
e fui lá divertir a criançada.
A
julgar pelo resultado, acho que perdi o jeito de fazer graça,
pois não consegui divertir as crianças. Usei quase
todos os truques do ramo, mas elas pouco davam risada e muitas
fugiam do teatrinho que montamos e corriam para dentro de casa
para disputar os jogos de computador, essa praga moderna e danosa.
Mas
os adultos ficaram lá sentados, rindo das minhas piadas
para gente grande. Pelo menos entre os marmanjos eu fiz um pouco
de sucesso. Quem mais ria era o homem que me contratou para a
festa. Não vou dizer o nome dele por uma questão
de princípio. Mas como se dizia antigamente, ele não
é flor que se cheire. Já esteve envolvido em vários
processos, sempre escapou da cadeia e tem um eleitorado fiel,
que nunca o deixa na mão. Soube depois que se reelegeu
com milhares de votos.
Meu
cachê da festa valeu a pena, mesmo não conseguindo
fazer a garotada rir, o que me deu uma grande frustração.
Já com os adultos, fui um sucesso. Sem querer ser maldoso,
no caminho para casa me lembrei daquele velho ditado, o do rico
ri à toa. E fiz uma variação pra explicar
melhor as risadas deles: corrupto ri à toa.
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