Plateia errada

Um velho amigo, que teve a sorte de amealhar grande fortuna, convidou-me para uma sessão de cinema em sua mansão. A sala, com 50 poltronas, não deve nada, em escala menor, aos mais requintados cinemas. Projeção de última geração, som excepcional, poltronas-dormitório, ar-condicionado e algumas bondades para os privilegiados, como bebidas de todos os tipos, água gelada e comidinhas várias.

Por uma deferência toda especial, meu amigo trouxe do exterior um filme excepcional para meu deleite particular. Foi uma surpresa, só soube o que era no início da sessão Trata-se do drama croata “Leptir Goreti”, ou, em tradução livre, “Sob o Domínio dos Bárbaros Ocidentais e Seus Asseclas”.

Mas antes, com a sala lotada, o que me preocupou, meu amigo me apresentou a meia dúzia de homens e mulheres, todos simpáticos e aparentemente civilizados, como percebi nos papos que tivemos. Em seguida, veio a exibição. Com legendas em inglês (sempre esse vício hediondo, por que não em francês ou mesmo em croata?), a abertura já me deixou extasiado. Uma aldeia de camponeses filmada como se fosse um pedaço do paraíso, com feéricas luzes de dezenas de cores, simbolizando a redenção e ascensão de pessoas humildes.

Então, veio à tona a estupidez humana, não na tela, mas na platéia. Começaram a usar os malditos celulares, conversavam alto, davam risadas do filme, enfim, coisas típicas de gente rústica e selvagem. Todo o clima aparentemente suave veio água abaixo. Lamentável.

Após a sessão aconteceria uma recepção. Inventei uma desculpa crível, agradeci meu amigo e fugi rápido daquele reduto de burgueses incivilizados.